terça-feira, 5 de março de 2019

Agricultura Orgânica x Agricultura Convencional parte 10 (Agroecologia)



A agricultura orgânica procura imitar a floresta, enquanto que a convencional ou "moderna" prioriza a monocultura, o uso de adubos químicos e agrotóxicos e o revolvimento do solo
   O uso crescente dos adubos químicos e agrotóxicos possibilitou a simplificação dos sistemas agrícolas, de forma que apenas uma cultura pudesse ser cultivada em determinada região para atender as necessidades locais ou as exigências de mercado. Esse modelo permitiu o aparecimento de pragas, doenças, plantas invasoras especializadas e uma série de outros problemas para essas culturas. A manutenção da fertilidade do solo e a sanidade dos cultivos depende de rotações de culturas, da reciclagem de biomassa e, principalmente, da diversidade biológica, principal pilar da agricultura orgânica a contribuir para a manutenção do equilíbrio do sistema e, consequentemente, do solo e da cultura. Portanto, o equilíbrio biológico e ambiental, bem como a fertilidade do solo, não podem ser mantidos com monoculturas. O sistema orgânico de produção de alimentos, por sua vez, prioriza a adição e a manutenção da matéria orgânica, a cobertura e o revolvimento mínimo do solo.
A importância da floresta para o meio ambiente
  As florestas podem serem consideradas os termostatos naturais: A planta transpira, perdendo água para o ar em forma de vapor; na passagem da fase líquida à gasosa refrigera a superfície da folha e ao mesmo tempo transforma a floresta no maior termostato que possuímos. Quando a temperatura sobe, a água transpirada aumenta igualmente, retirando calor do ar. Por isso, não existem os extremos de temperaturas conhecidos nos desertos, onde durante o dia chega até 50ºC e a noite baixa até -1ºC. A explicação para este fato é a falta de água que pudesse ser transpirada e, mais exatamente, a falta de florestas ou represas ou lagos que atuassem como termostatos. Portanto, onde as florestas ainda permanecem intatas, as temperaturas são muito mais amenas. A Amazônia equatorial possui uma temperatura média de 24ºC, oscilando entre 21 e 28ºC. No Brasil 87% da população vivem em centros urbanos. O clima urbano difere consideravelmente do ambiente natural. As cidades distanciam-se cada vez mais da natureza, utilizando materiais como ferro, aço, amianto, vidro, piche, entre outros. Estes materiais geralmente são refletores e contribuem para a criação de ilhas ou bolsões de calor nas cidades. Em função disso, o clima é semelhante ao do deserto, quente e seco durante o dia e frio durante a noite. A impermeabilização dos solos causa grandes problemas também na medida que evitam ou impedem a infiltração da água, forçando-a para a calha dos rios, muitas vezes causando enchentes, já que os rios não conseguem absorver um volume tão grande de água num curto espaço de tempo.


 Figura 1. As florestas são essenciais para o meio ambiente, especialmente por funcionar como termostatos naturais

Benefícios da arborização
    Os benefícios advindos da arborização urbana promovem a melhoria da qualidade de vida e o embelezamento da cidade. Essa arborização depende do clima, tipo de solo, do espaço livre e do porte da árvore para se obter sucesso nas cidades. Além da função paisagística, a arborização proporciona à população proteção contra ventos, diminuição da poluição sonora, absorção de parte dos raios solares, sombreamento, atração e ambientação de pássaros, absorção da poluição atmosférica, neutralizando os seus efeitos na população, valorização da propriedade pela beleza, higienização mental e reorientação do vento. A floresta, quando em equilíbrio, reduz ao mínimo a saída de nutrientes do ecossistema. O solo pode manter o mesmo nível de fertilidade ou até melhorá-lo ao longo do tempo. Uma floresta não perturbada apresenta grande estabilidade, isto é, os nutrientes introduzidos no ecossistema pela chuva e o intemperismo geológico estão em equilíbrio com os nutrientes perdidos por lixiviação para os rios ou lençol freático. A floresta deve ser apreciada como uma atividade agrícola qualquer, que visa à produção de biomassa com intenção de obter algum lucro. Assim, além do consumo de água, devemos contabilizar a sua qualidade, o regime de vazão e a saúde do ecossistema aquático. Possibilita também uma visão mais abrangente sobre a relação do uso da terra, seja na produção florestal, agrícola, pecuária, abertura de estradas, urbanização, enfim, toda e qualquer alteração antrópica na paisagem e a conservação dos recursos hídricos.
   Pelos resultados das pesquisas percebe-se que as florestas são importantes por vários fatores, mas principalmente em relação aos recursos hídricos, pois interceptam a água das chuvas, reduzindo o risco de erosão, aumentam a capacidade de infiltração da água no solo tornando-o mais poroso e a estabilidade do sistema ou microssistema funcionando com tampão, isto é, liberando ou retendo água.
  O organismo humano está bem mais protegido da poluição quando perto de árvores localizadas em parques do que ao lado daquelas que ficam foram deles. É o que diz a tese de doutorado defendida no Laboratório de Poluição Atmosférica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. O estudo mostra que a concentração de metais pesados e gases poluentes no ar é maior nos trechos de áreas verdes próximos a avenidas do que no meio dos parques. O que provoca isso é uma espécies de "filtro antipoluição", que é formado pelas árvores que ficam em volta dos parques. É como se elas sequestrassem e absorvessem nas cascas os poluentes, impedindo-os de avançar para o interior dessas áreas. A constatação foi feita pela engenheira florestal Ana Paula Martins, que estudou por quatro anos amostras de cascas de árvores de cinco parques de São Paulo. De acordo com o trabalho, nenhum dos locais está imune a pelo menos 11 metais, mas a concentração varia conforme a localização. Para chegar aos índices, a pesquisadora coletou amostras de cascas da camada externa das árvores retiradas a 1,5 m de distância do solo. A pesquisadora diz que escapamento, freada e arranque de veículos, que soltam pedaços de pneu, são responsáveis por liberar partículas de metais: "zinco, chumbo e cobre são provenientes da poluição veicular". Embora não haja um padrão dos níveis saudáveis desses elementos, especialistas afirmam que inalar metais pesados como bário, bromo e cobalto, entre outros, pode trazer, a longo prazo, problemas à saúde. "Encapar as avenidas com cobertura vegetal pode diminuir o impacto da poluição na saúde, além de aumentar a qualidade do ar", explica Paulo Saldiva, pesquisador do Laboratório de Poluição da USP e orientador da tese.

. Organização da propriedade visando o sucesso na agricultura orgânica
    Na agricultura orgânica, a propriedade rural é considerada um agroecossistema, que se traduz num sistema agrícola baseado na biodiversidade do local. Depende das interações e dos ciclos biológicos das espécies vegetais e animais e da atividade biológica do solo, do uso mínimo de produtos externos à propriedade e do manejo de práticas que restauram, mantêm e promovem a harmonia ecológica do sistema. Portanto, o sucesso e a sustentabilidade dos sistemas orgânicos dependem da integração de todos os recursos internos da propriedade, buscando-se o equilíbrio ente os recursos naturais, as plantas cultivadas, a criação de animais e o próprio homem. Ao passo que no sistema convencional uma lavoura é tratada de forma individualizada e com a maioria dos insumos de alto custo energético vindos de fora da propriedade, no sistema orgânico procura-se explorar ao máximo os fatores inerentes ao ambiente e os recursos internos à propriedade. 

. Como é feita a diversificação do sistema na produção orgânica de alimentos?
   A produção orgânica exige a reformulação da organização da propriedade, que diverge bastante da disposição adotada no sistema convencional. O aspecto mais importante é a subdivisão da propriedade em talhões que no caso das hortaliças, não deve ultrapassar 1.000 m2, visando facilitar a administração e as atividades de produção. A disposição dos talhões e da infra-estrutura na propriedade deve reduzir as necessidades de transporte e de mão-de-obra para execução dos trabalhos, tendo em vista que na produção de hortaliças é intenso a utilização de insumos e mão-de-obra.
    As condições climáticas interferem sobremaneira na produção de hortaliças. Extremos de temperatura, umidade e excesso de ventos podem comprometer a produção da maioria das hortaliças. Por isso, os talhões de cultivo através de cordões de contorno ou cercas vivas, uso de cobertura morta de solo com restos de gramíneas e/ou leguminosas e até plantas espontâneas, plantio direto sobre palhadas e plantios consorciados, utilizando espécies de retorno econômico e também adubos verdes são muito importantes. A cerca viva que pode ser plantas ornamentais e, especialmente de capim elefante, funciona como um quebra-vento, reduzindo o impacto dos ventos frios ou quentes e a movimentação de algumas pragas e doenças dentro e fora da propriedade. Além disso, a cerca viva, serve para sombrear um pouco a área, especialmente no verão; no inverno, especialmente se for capim elefante, pode servir para fazer a compostagem e, desse modo, evitando o problema de sombreamento na área cultivada.
Os cordões de contorno ou faixas de vegetação, além de servir para dividir os talhões de cultivo, são úteis para circundar a propriedade e permitir o isolamento das áreas de cultivo convencional de propriedades vizinhas. Em propriedades integradas com produção animal, o que é muito interessante devido principalmente a produção de esterco, essas áreas podem contribuir para a produção de alimentos para os animais e, ainda, favorecer a rotação de culturas com as gramíneas, espécies muito recomendadas devido a resistência às pragas e doenças. Outra possibilidade é a utilização nos cordões de contorno, os adubos verdes para produzir biomassa visando à obtenção de composto orgânicos, pois estas espécies tem boa capacidade de extração de nutrientes e/ou fixação de nitrogênio que podem ser incorporados no solo ou como cobertura morta, ao serem roçados, e até como coberturas vivas nas áreas de cultivo. Portanto, a instalação dessas faixas de vegetação permite a criação de condições climáticas favoráveis à redução do estresse sofrido pelas plantas e são essenciais para o manejo fitossanitário da propriedade orgânica; também são importantes para fazer o histórico das áreas, especialmente ao adotar a prática da rotação de culturas, princípio fundamental para o sucesso da agricultura orgânica. No esquema de rotação é importante evitar o plantio de espécies da mesma família em sucessão ou nas faixas adjacentes; espécies de hortaliças pertencentes às famílias botânicas das solanáceas (batata, tomate, pimentão, pimenta e berinjela) brássicas (repolho, couve-flor, couve e brócolis) e cucurbitáceas (melancia, melão, abóbora, abobrinha, moranga e pepino) possuem as mesmas pragas e doenças.
    Outra preocupação que o produtor deve ter na organização de sua propriedade visando o cultivo orgânico de alimentos é a preservação de áreas de refúgio. O que são áreas de refúgio? são áreas de vegetação para preservação e atração de inimigos naturais de pragas e pequenos predadores que auxiliam no controle de pragas. Essas áreas servem de refúgio para diversos insetos benéficos que se alimentam de fungos ou para organismos que, sem seus inimigos naturais, poderiam acabar com a plantação. Esses nichos são formados pelas reservas de vegetação nativa, pelas faixas de cercas vivas ou cordões de contorno que circundam as áreas de cultivos ou com plantas espontâneas. As áreas de refúgio garantem a preservação da fauna silvestre e a diversidade é essencial para o equilíbrio de várias espécies, contribuindo muito para o equilíbrio de várias espécies, contribuindo muito para o equilíbrio do sistema como um todo.
    É importante também o produtor ter em mente as áreas de pousio. O que são áreas de pousio? Como o próprio nome sugere, são áreas que garantem o "descanso" do solo, após cultivo intensivo, para reconstituir e conservar suas propriedades químicas, físicas e biológicas. As áreas em pousio devem permanecer cobertas com alguma vegetação, que pode ser adubos verdes ou a vegetação natural da área. Essas áreas são muito importantes para garantir a manutenção da vida no solo.
    O produtor orgânico deve se preocupar prioritariamente com a diversificação da paisagem geral de sua propriedade de forma a restabelecer o equilíbrio entre todos os seres vivos da cadeia alimentar, desde microrganismos até pequenos animais, pássaros e outros predadores. A introdução de espécies vegetais com múltiplas funções no sistema produtivo é a base do (re)estabelecimento do equilíbrio da propriedade, incluindo-se espécies de interesse econômico, adubos verdes, arbóreas, atrativas, ornamentais e até plantas espontâneas.





quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Agricultura Orgânica x Agricultura Convencional parte 9 (Agrotóxicos)



A ANVISA - Agência Nacional de Vigilância Sanitária divulgou no dia 7/12/2011 o relatório de 2010 sobre os resultados do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos - PARA, realizado nos principais centros consumidores de 26 estados do Brasil. A exemplo do relatório de 2009 do PARA – Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos (Figura 2), os resultados referentes ao ano de 2010 (Figura 1), são muito preocupantes, pois mostram que em 28% das amostras de alimentos analisadas de dezoito diferentes culturas, havia excesso de agrotóxicos ou agrotóxicos não autorizados para aquela cultura, o que pode representar um risco maior à saúde. É importante ressaltar que nos dois relatórios, as amostras das hortaliças pimentão, pepino, morango, alface, couve, beterraba e cenoura e, as frutas abacaxi e o mamão, foram as mais contaminadas por agrotóxicos. Segundo o levantamento de 2010, um grupo de compostos químicos conhecido como "organofosforados" está presente em mais da metade das amostras irregulares detectadas; essas substâncias podem destruir células musculares e comprometer o sistema nervoso, provocando problemas cardiorrespiratórios. O "Carbendazim", outra substância usada no controle de pragas, foi detectada de forma irregular em 176 amostras, sendo que 90 delas em pimentão; recentemente, foi noticiado pelo Jornal Nacional que resíduos deste agrotóxico foi encontrado no suco brasileiro exportado para os Estados Unidos e, por isso, a partida deste produto não foi aceito. Observou-se a presença de agrotóxicos proibidos ou acima do limite permitido de resíduos em vários alimentos, ou seja, estes estão chegando à mesa dos consumidores contaminados por agrotóxicos; segundo a ANVISA, os alimentos com maior número de amostras contaminadas no levantamento de 2010, são: pimentão (92%), morango (63%), pepino (75%), alface (54%), cenoura (50%), beterraba, couve e abacaxi (32%) e mamão (30%), . O assunto foi destaque no jornal nacional veiculado nos dias 06, 07 e 08/12/2011; as reportagens foram postadas na íntegra, neste blog nos dias 07 e 12/12/2011.

Figura 1. Amostras de alimentos contaminadas por agrotóxicos em 2010

Figura 2. Amostras de alimentos contaminadas por agrotóxicos em 2009

   A ANVISA têm por objetivo principal a promoção da saúde através do consumo de alimentos de qualidade e a prevenção das Doenças Crônicas Não Transmissíveis - DCNT secundárias à ingestão cotidiana de quantidades perigosas de agrotóxicos. As doenças crônicas não transmissíveis constituem um dos maiores problemas mundiais de saúde pública, comprometendo o desenvolvimento humano de todos os países. Estimativas da Organização Mundial de Saúde -OMS, baseadas na declaração dos Estados membros, avaliam que as DCNT são responsáveis por 63% das 57 milhões de mortes declaradas no mundo em 2008, e por 45,9% do volume global de doenças. A Organização prevê, ainda, um aumento significativo dos óbitos por esta causa, de 15% entre 2010 e 2020. No Brasil, as DCNT teriam causado 893.900 mortes em 2008, correspondendo a mais importante causa de óbito no país, posto que seriam responsáveis por 74% das mortes ocorridas nesse ano. Em torno de 30% dos casos, afetariam pessoas com menos de 60 anos.

    Levantamento realizado em Santa Catarina referente as intoxicações e mortes registradas devido aos agrotóxicos no hospital universitário da UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina, revelam que no período de 1984 a 2010 houveram 11.801 pessoas intoxicadas e 263 mortes. Analisando-se os casos registrados anualmente verificou-se também que na década de 1991 a 2000 ocorreram, em média, 350 casos de pessoas intoxicadas por ano, enquanto que de 2001 a 2010 houveram 600 casos de pessoas intoxicadas por ano, ou seja, um aumento de 70% (Fonte: extraído do site www.cit.sc.gov.br ).

. Principais sinais e sintomas de envenenamento por agrotóxicos: irritação ou nervosismo; ansiedade e angústia;  tremores no corpo;  indisposição, fraqueza e mal estar, dor de cabeça, tonturas, vertigem, náuseas, vômitos, cólicas abdominais;   Alterações visuais; respiração difícil, com dores no peito e falta de ar;  queimaduras e alterações da pele;   Dores pelo corpo inteiro;  irritação de nariz, garganta e olhos; urina alterada; convulsões ou ataques; desmaios, perda de consciência e até o coma.

. O que pode ser feito pelo consumidor para diminuir a ingestão de agrotóxicos? optar por alimentos certificados como, por exemplo, os orgânicos, e por alimentos da época, que a princípio necessitam de uma carga menor de agrotóxicos para serem produzidos. A orientação é procurar fornecimento de produtos com a origem identificada, pois isto aumenta o comprometimento dos produtores em relação à qualidade dos alimentos, com a adoção das boas práticas agrícolas. Além disso, a opção pelo consumo de alimentos produzidos com técnicas de manejo integrado de pragas, que recebem uma carga menor de produtos químicos, e sempre que possível de baixa toxicidade, contribuem para a manutenção de uma cadeia de produção ambientalmente mais saudável. Outra opção, a ideal, para quem dispor de pequena área ( 10 m2 é suficiente para produzir as principais hortaliças de menor ciclo para uma família ) é ter sua própria horta orgânica, pois é fácil, mais barato, os alimentos são mais nutritivos, podem ser colhidos próximo a hora de consumir (frescos), além de ser uma ótima terapia ocupacional e uma boa oportunidade de fazer exercícios ao ar livre e, o melhor, não oferece riscos à saúde das pessoas e ao meio ambiente.

. Ao lavar os alimentos, os agrotóxicos são retirados dos alimentos? NÃO COMPLETAMENTE: O processo de lavagem dos alimentos contribui para a retirada de parte dos agrotóxicos. Os agrotóxicos podem ser divididos quanto ao modo de ação entre sistêmicos e de contato. Os sistêmicos são aqueles que, quando aplicados nas plantas, circulam através da seiva por todos os tecidos vegetais, de forma a se distribuir uniformemente e ampliar o seu tempo de ação. Os de contato são aqueles que agem externamente no vegetal, tendo necessariamente que entrar em contato com o alvo biológico. E mesmo estes são também, em boa parte, absorvidos pela planta, penetrando em seu interior através de suas porosidades. Uma lavagem dos alimentos em água corrente só poderia remover parte dos resíduos de agrotóxicos presentes na superfície dos mesmos. Os agrotóxicos sistêmicos e uma parte dos de contato, por terem sido absorvidos por tecidos internos da planta, caso ainda não tenham sido degradados pelo próprio metabolismo do vegetal, permanecerão nos alimentos mesmo que esses sejam lavados. Neste caso, uma vez contaminados com resíduos de agrotóxicos, estes alimentos levarão o consumidor a ingerir resíduos de agrotóxicos.

. Água sanitária remove agrotóxicos dos alimentos? até o momento a ANVISA não tem conhecimento de estudos científicos que comprovem a eficácia da água sanitária ou do cloro na remoção ou eliminação de resíduos de agrotóxicos nos alimentos. Soluções de hipoclorito de sódio (água sanitária ou solução) devem ser usadas para a higienização dos alimentos na proporção de uma colher de sopa para um litro de água com o objetivo apenas de matar agentes microbiológicos que possam estar presentes nos alimentos.
. Quando o relatório diz que os resultados do PARA são insatisfatórios, não representam riscos à saúde dos consumidores? nas 2.488 amostras analisadas em 2010, em 37% delas, não foram detectados resíduos; 35% apresentaram resíduos abaixo do LMR (Limite Máximo de Resíduos) estabelecido; e 28% foram consideradas insatisfatórias por apresentarem resíduos de produtos não autorizados ou, autorizados, mas acima do LMR. Os resultados encontrados pela ANVISA dividem-se em duas categorias:
  1. Resíduos que podem causar dano à saúde porque excederam os limites máximos estabelecidos em legislação;
  2. Resíduos que podem causar dano à saúde porque são agrotóxicos não autorizados para aquele determinado alimento.
     No primeiro caso, que representa 1,7% do total dos resultados insatisfatórios (abacaxi e o mamão tiveram 8,2 e 6,8% das amostras contaminadas e acima do permitido), o uso abusivo dos agrotóxicos, em desrespeito às indicações da bula de cada produto e, ainda a negligência ao intervalo de segurança (tempo entre a última aplicação e colheita dos alimentos) levam à presença de resíduos nos alimentos superiores àqueles estabelecidos em legislação e reconhecidos como seguros, expondo a população a possíveis agravos à saúde. É importante ressaltar ainda que, além do risco à saúde da população em geral, representado pela ingestão prolongada desses alimentos com agrotóxicos acima do LMR permitido, estes resultados sugerem que as Boa Práticas Agrícolas não estão sendo respeitadas. O segundo caso, referente aos produtos Não Autorizados (NA), representa aproximadamente 24,3% dos resultados insatisfatórios. os resultados insatisfatórios devido à utilização de agrotóxicos não autorizados resultam de dois tipos de irregularidades:
.seja porque foi aplicado um agrotóxico não autorizado para aquela cultura, mas cujo IA- Ingrediente Ativo está registrado no Brasil e com uso permitido para outras culturas;
.seja porque foi aplicado um agrotóxico banido do Brasil ou que nunca teve registro no país, logo, sem uso permitido em nenhuma cultura.

  Dentre os produtos não autorizados para uma determinada cultura, destacou-se o carbendazim com 176 amostras apresentando resíduos desse agrotóxicos, das quais 90 são provenientes da cultura do pimentão e o restante em outras sete culturas agrícolas: abacaxi, alface, beterraba, couve, mamão, morango e repolho. Outros ingredientes ativos, do grupo químico organofosforado, tiveram também elevado número de ocorrências: o clorpirifós, o metamidofós e o acefato, contribuindo com 154, 125 e 76 resultados de amostras insatisfatórias, respectivamente.

. Quais as consequências de se ingerir agrotóxicos? de acordo com os conhecimentos científicos atuais, se ingerirmos quantidades dentro dos valores diários aceitáveis (IDA – Ingestão Diária Aceitável) não sofreremos nenhum dano à saúde; é a quantidade máxima de agrotóxicos que podemos ingerir por dia, durante toda a nossa vida, sem que soframos danos à saúde por esta ingestão. Existem estudos que indicam que, se ultrapassarmos essas quantidades, as conseqüências poderão variar desde sintomas como dores de cabeça, alergia e coceiras até distúrbios do sistema nervoso central ou câncer, nos casos mais graves de exposição, como é o caso dos trabalhadores rurais.
   Em geral, esses sintomas são pouco específicos, não sendo possível determinar a causa baseado apenas na avaliação clínica. Tudo isso vai variar de acordo com diversos fatores, tais como o tipo de agrotóxico que ingerimos, o nível de exposição a estas e outras substâncias químicas, a idade, o peso corpóreo, tabagismo, etc.
Para o registro de agrotóxicos no país, é exigida pelas autoridades regulatórias uma série de estudos com o objetivo de definir o grau de relevância toxicológica do agrotóxico em relação ao uso, aos limites de resíduos e ao consumo diário. O Limite Máximo de Resíduo (LMR) permitido é expresso em mg/kg da cultura e a quantidade diária segura para o consumo (Ingestão Diária Aceitável-IDA) é expressa em mg/kg de peso corpóreo. Os dados para cada ingrediente ativo estão publicados no link http://www.anvisa.gov.br/toxicologia/monografias/index.htm.
Exemplificando: se um determinado ingrediente ativo contido em um agrotóxico tiver uma IDA igual a 0,05 mg/kg, significa que uma pessoa de 60 kg, por exemplo, poderia ingerir uma quantidade máxima de 3,0 mg, diariamente, sem riscos à saúde. Esses valores são definidos com uma margem boa de segurança para o consumidor.




sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Agricultura Orgânica x Agricultura Convencional (Manejo das plantas espontâneas)



Na agricultura orgânica, o "mato" ou "inços" são chamados de plantas espontâneas: são espécies que germinam na área de cultivo, podendo ser espécies nativas (surgem naturalmente na região) ou exóticas (introduzidas na região) já estabelecidas ou são indicadoras de algum problema no solo. Quando uma planta se torna agressiva ("invasora" ou "inço") e domina uma área, o problema não está na planta, mas no solo e/ou no ambiente que o envolve. As plantas espontâneas estão adaptadas ao seu ambiente, sendo portanto, indicadoras das condições químicas ou físicas do solo, indicando também o manejo que está sendo praticado. Para que uma espécie de planta não domine a área cultivada, primeiro é preciso resolver os problemas existentes no solo. A seguir alguns exemplos de plantas indicadoras de problemas no solo:

Picão preto e urtiga – excesso de matéria orgânica
Carqueja, capim-carrapicho, guanxuma, língua-de-vaca, maria mole e tanchagem – solo compactado
Samambaia e capim-arroz – solo ácido com alto teor de alumínio
Barba-de-bode e capim-amargoso – solo com baixa fertilidade
Capim marmelada ou papuã – solo muito arado e gradeado, com deficiência de zinco
Nabo – solo com deficiência de boro e manganês
Tiririca ou junça – solo ácido, com carência de magnésio
Caraguatá – é frequente em solos onde se praticam queimadas
Azedinha - solo argiloso, ácido, carência de cálcio e molibdênio

   Ao mesmo tempo que uma planta espontânea indica um problema, também ajuda a solucioná-lo. A competição por água e nutrientes exercida pelas plantas espontâneas é uma preocupação para o hemisfério norte, onde a estação de crescimento é fria, única e curta. Nas condições tropicais e subtropicais, clima predominante no Brasil, esta competição é menos problemática do que a falta de cobertura do solo; as plantas espontâneas ajudam a cobrir o solo, reduzindo a erosão e o aquecimento superficial, nossos principais problemas. Ao reduzir a erosão e o aquecimento superficial, contribuem para melhorar a disponibilidade de água e a absorção de nutrientes pelas raízes, as quais paralisam esta atividade quando o solo atinge temperaturas acima de 32 ºC. As plantas espontâneas aumentam a densidade e a diversidade radicular, contribuem para a reciclagem de nutrientes e para melhorar as características físicas, químicas e biológicas do solo. São fontes de biomassa, produzem flores que atraem insetos predadores e podem servir de alimento preferencial para pragas das culturas. Por isso, as plantas espontâneas não merecem ser chamadas de daninhas e sim, ser consideradas, como uma reação da natureza à falta de cobertura do solo. Portanto as plantas espontâneas ("daninhas" ou "mato") são consideradas "amigas" das plantas cultivadas.

Manejo das plantas espontâneas no plantio definitivo de hortaliças
     Na agricultura orgânica "o mato" funciona como: cobertura do solo, protegendo-o contra a erosão e chuvas fortes, adubação verde e até como abrigo e alimento de inimigos naturais dos insetos-pragas que atacam as culturas. As principais práticas que são recomendadas no manejo das plantas espontâneas na agricultura orgânica são:
Práticas de prevenção: evitar a multiplicação das sementes; em áreas muito inçadas preparar o solo com antecedência; utilizar composto orgânico ao invés de esterco de animais (gado); controle manual; rotação e consorciação de culturas;
Plantas de cobertura (adubos verdes) em rotação, sucessão ou consorciadas com os cultivos e com efeitos alelopáticos: mucuna (favorece o abafamento das plantas espontâneas), feijão de porco (inibe a tiririca), aveia e nabo forrageiro ( inibem o papuã), ervilhaca e outras;
As plantas espontâneas não devem ser totalmente eliminadas: se entende que ocorre um mecanismo de sucessão natural de espécies numa determinada área e, por isso, a intervenção deverá ser no sentido de auxiliar a natureza para que este processo ocorra ao longo do tempo, para que a população de plantas espontâneas mais "agressivas" seja reduzida a níveis toleráveis, cedendo espaço para as mais "comportadas" e de mais fácil manejo. O crescimento das plantas espontâneas ao redor dos cultivos ou o estabelecimento de áreas ou faixas de vegetação espontâneas fora da área cultivada tem a vantagem de assegurar maior estabilidade do sistema produtivo, reduzindo os problemas com pragas e doenças e aumentando a atividade de inimigos naturais das pragas;
Roçada das plantas espontâneas: as "plantas espontâneas, podem conviver com os cultivos após o período crítico de competição, especialmente por luz, nos 30 dias após o plantio. Dependendo da espécie cultivada, é possível permitir o crescimento das plantas espontâneas, as quais podem dificultar um pouco a colheita, porém , isto pode ser mais preferível do que controlá-las. Em certos casos, amassar as plantas espontâneas pode ser mais vantajoso do que roçar e roçar mais vantajoso do que capinar. Plantas espontâneas mais persistentes podem ter sua população controlada a níveis toleráveis se permitirmos que outras de ciclo mais longo as abafem;
Cobertura vegetal viva ou morta, utilizando o cultivo mínimo ou plantio direto : reduz a incidência de plantas espontâneas impedindo a germinação ou abafando.

Figura 1. Cultivo mínimo de brássicas no plantio de outono sobre as plantas espontâneas

Figura 2. Feijão-de-porco, além de melhorar a fertilidade do solo,é uma opção de manejo da tiririca através da alelopatia 

Figura 3. Cultivo mínimo de aipim sobre adubos verdes de inverno (aveia + ervilhaca)

 Figura 4. Cultivo mínimo de brássicas sobre adubos verdes de inverno (aveia + ervilhaca) 

Figura 5. Plantio direto de couve-flor sobre cobertura morta de palha de arroz 

Figura 6. Cultivo de morangueiro sobre cobertura de serragem

Manejo de plantas espontâneas em sementeiras (cebola e outras) e no cultivo de cenoura e salsa
  Um dos desafios na agricultura orgânica é o manejo das plantas espontâneas em sementeiras e, especialmente, no cultivo de algumas hortaliças como cenoura e salsa, espécies que demoram 10 a 15 dias para a emergência e, por isso, acabam competindo com o "mato" que emerge mais rapidamente. Portanto, o período mais crítico de competição com as plantas espontâneas é quando da emergência das plântulas até os 30 dias subsequentes. Após esse período, as plantas espontâneas não causam maiores problemas, especialmente quando as hortaliças são cultivadas em linhas.
    Para retardar as plantas espontâneas, pesquisadores da Epagri/Estação Experimental de Ituporanga descobriram um método eficiente para canteiros, utilizando folhas de papel: após o preparo do canteiro, cobre-se o mesmo com jornal (uma folha apenas) ou papel pardo em toda a extensão e sobre este aplica-se 2cm de composto orgânico peneirado. Faz-se a semeadura a lanço ou no sulco e cobrem-se as sementes com 2cm de composto peneirado. Recomenda-se este sistema especialmente para as culturas que possuem sementes pequenas e germinação mais demorada, como cenoura e salsa, e que são semeadas diretamente no canteiro, com objetivo de atrasar a emergência das plantas espontâneas na fase mais crítica (até 25 a 30 dias após a semeadura). Posteriormente, procede-se a abertura dos sulcos, a semeadura e a cobertura das sementes.

Figura 7. Preparo do canteiro para semeadura, colocando-se o jornal e posteriormente o composto orgânico

Figura 8.. Manejo de plantas espontâneas no cultivo de cenoura – fase inicial do desenvolvimento (à esquerda com jornal e à direita sem jornal)

Figura 9 .Cultivo de cenoura em canteiros utilizando-se folha de jornal – fase intermediária




sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Agricultura Orgânica vs Agricultura Convencional parte 7 (Plantas Daninhas)



 Na agricultura convencional, o "mato" ou "inços" são chamados de "plantas daninhas" pois leva-se em conta somente os efeitos negativos sobre a produção. Em uma conceituação ampla, planta daninha "é toda e qualquer planta que ocorre onde não é desejada". Em termos agrícolas, planta daninha pode ser conceituada como "toda e qualquer planta que germine espontaneamente em áreas de interesse humano e que, de alguma forma, interfere prejudicialmente em suas atividades agropecuárias" A solução encontrada pela agricultura "moderna" são os inúmeros herbicidas que acabam contaminando as fontes de água e, o que é pior, contaminando as pessoas, especialmente quando o uso for nas cidades. Felizmente, em Santa Catarina, esta prática é proibida por lei. Precisamos estar atentos e denunciar para a Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária em seu município, esta prática irregular, especialmente realizado pelas prefeituras.
Lei proíbe a capina química nas cidades em Santa Catarina 
A lei nº 14.734 que proíbe a capina química em áreas de faixa de domínio de ferrovias, rodovias, vias públicas, ruas, praças, passeios, calçadas, avenidas, terrenos baldios, margem de arroios e valas em todo o território de Santa Catarina, foi sancionada pelo governador Luiz Henrique da Silveira em 17/06/2009. A lei nº 15.117 de 19/01/2010 alterou a redação, incluindo o parágrafo único: "a proibição contida na lei 14.734 não se aplica em áreas rurais e nas capinas amadoras em imóveis particulares devidamente protegidos do acesso público".
Mas o que é capina química? é todo método de eliminação de plantas invasoras pelo uso de herbicidas.

Figura 1. Por força de lei esta cena não pode ser mais vista nas cidades de Santa Catarina e, o que é pior, sem nenhum equipamento de proteção ao aplicador.

Capina química nas cidades: Por que proibir?
    Devido a ausência de segurança toxicológica, desde 2003, a Anvisa não permite a aplicação de herbicidas em ambientes urbanos, pois não tem como proibir o trânsito de pessoas, por pelo menos 24 horas após a aplicação; Todos os produtos registrados para uso agrícola, possuem, como regra, um período de reentrada mínimo de 24 horas, ou seja, após a aplicação do produto, a área deve ser isolada e sinalizada e, no caso de necessidade de entrada no local durante este intervalo, o uso de equipamentos de proteção individual é obrigatório.Em ambientes urbanos, o isolamento de uma área por 24 horas é impraticável, isto é, não tem como assegurar que a população, especialmente as crianças, analfabetos e deficientes visuais, sejam avisados e impedidos de entrar na área, principalmente logo após aplicação, quando ainda está molhado, o que aumenta muito o risco de intoxicação.
     A capina química com herbicidas nas cidades expõe a população ao risco de intoxicação, além de contaminar os animais, os vegetais, o solo e as fontes de água. São vários os fatores para proibir a capina química nas cidades, uma questão muito importante para resguardar a saúde pública. Dentre os fatores, destacam-se:
. A elevada densidade populacional nas áreas urbanas em contraposição aquela encontrada nas áreas rurais, onde é mais frequente o uso de agrotóxicos, significa um número bem maior de expostos, visto a concentração de moradias e atividades. É praticamente inviável interditar praças e ruas da circulação de pessoas durante e após a aplicação do agrotóxico;
. Os herbicidas autorizados para uso em áreas urbanas são os mesmos utilizados na agricultura, os quais, possuem regras restritas para manipulação e acesso as áreas tratadas. Além do agricultor não acessar as áreas após o tratamento, os solos agrícolas são permeáveis o que diminui o acúmulo e o escoamento superficial do produto aplicado;
. As áreas urbanas são pavimentadas ou de solo compactado favorecendo ao acúmulo superficial do herbicida aplicado, e nos casos de chuva, devido ao escoamento do produto, ocorre a formação de poças e retenções de água com elevadas concentrações do veneno, as quais, ocasionam importante aumento do risco de exposição de adultos, crianças, flora e fauna existente na área aplicada;
. As crianças, em particular, são mais sujeitas as intoxicações em virtude dos seguintes fatores: quanto menor o peso menor a dose de veneno necessária para intoxicar; as crianças utilizam os espaços públicos para brincar, muitas vezes sentando-se no chão e/ou utilizando poças e águas paradas para diversão e ainda levam com freqüência até a boca, objetos e alimentos que caem ou estão no chão onde se encontra o veneno;
. Os animais domésticos, tais como: cães, gatos, cavalos, pássaros e outros podem ser intoxicados, tanto pela ingestão de água contamina, como pelo consumo de capim, sementes e alimentos espalhados nas ruas. Soma-se a estes, o fato destes animais utilizarem calçadas e ruas como local de descanso.
    Para orientar municípios de todo país sobre os perigos do uso de herbicidas nas cidades, a Anvisa publicou a seguinte nota técnica em 15/01/2010: "os herbicidas são produtos essencialmente perigosos e sua utilização, mesmo no meio rural, deve ser feita sob condições de intenso controle, não apenas por ocasião da aplicação, mas também com o isolamento da área na qual foi aplicado" Na mesma nota, acrescenta: "fica evidenciado que não seria possível aplicar medidas que garantam condições ideais de segurança para o uso de agrotóxicos em ambiente urbano".
Todos os herbicidas causam preocupações em termos de saúde pública. Os principais são: 2,4D, glifosato (round-up) e paraquat (gramoxone).
    O paraquat provoca, quando absorvido, especialmente por via digestiva, lesões hepáticas e renais e principalmente, fibrose pulmonar irreversível, determinando a morte em cerca de 2 semanas, por insuficiência respiratória. Causa lesões na pele (via dérmica), lesões graves nas mucosas (via oral), sangramento pelo nariz, mal-estar, fraqueza e ulcerações na boca, torna as unhas quebradiças, produz conjuntivite ou opacidade da córnea (contato com os olhos). Não há tratamento médico adequado para esta situação.
    O 2,4D é bem absorvido pela pele, via digestiva e inalação, determinando de forma aguda, alterações da glicemia de forma transitória e ainda pode simular um quadro clínico de diabetes, além de alterações neuro-musculares provocando um processo inflamatório dos nervos longos dos membros inferiores e superiores.
  O Glifosato (round-up) causa problemas dermatológicos, principalmente dermatite de contato. Além disso, é irritante de mucosas, principalmente da mucosa ocular.
A evolução das intoxicações registradas pelo hospital universitário da UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina, revela que na década de 1991 a 2000 ocorreram, 350 casos de pessoas intoxicadas por ano, enquanto que década de 2001 a 2010 foram registrados 600 casos de pessoas intoxicadas por ano. Fonte: www.cit.sc.gov.br 
A intoxicação consiste em uma série de efeitos sintomáticos produzidos quando uma substância tóxica é ingerida ou entra em contato com a pele, olhos ou membranas mucosas. Os agrotóxicos podem determinar três tipos de intoxicação: aguda, subaguda e crônica. Na intoxicação aguda os sintomas surgem rapidamente, algumas horas após a exposição excessiva, por curto período, a produtos extrema ou altamente tóxicos. Pode ocorrer de forma leve, moderada ou grave, a depender da quantidade de veneno absorvido. Os sinais e sintomas são nítidos e objetivos. A intoxicação subaguda ocorre por exposição moderada ou pequena a produtos altamente tóxicos ou medianamente tóxicos e tem aparecimento mais lento. Os sintomas são subjetivos e vagos, tais como dor de cabeça, fraqueza, mal-estar, dor de estômago e sonolência, entre outros. A intoxicação crônica caracteriza-se por surgimento tardio, após meses ou anos, por exposição pequena ou moderada a produtos tóxicos ou a múltiplos produtos, acarretando danos irreversíveis, do tipo paralisias e neoplasias.
Tendo em vista o aumento significativo na última década nos casos registrados de intoxicação por agrotóxicos em Santa Catarina em até 70%, apelamos para que as pessoas denunciem para a vigilância sanitária de seu município, quando houver aplicação de herbicidas em sua cidade. A proibição é para todos os tipos de herbicidas! Não existe herbicida mais ou menos ecológico como alguns estão tentando vender o "Mata-Mato" e outros produtos proibidos para aplicação em zona urbana!




domingo, 23 de setembro de 2018

Agricultura Orgânica vs Agricultura Convencional parte 6 (controle natural)



A utilização dos adubos químicos, dos agrotóxicos e das sementes híbridas forma um círculo vicioso, interessante apenas para as multinacionais da agroindústria. As sementes ditas melhoradas necessitam mais adubação para se desenvolverem. A utilização do adubo químico torna as plantas mais fracas e mais suscetíveis ao ataque de pragas e doenças. E se tem que utilizar cada vez mais adubos químicos,  inseticidas e fungicidas para manter o nível desejável de produção.
     A agricultura moderna está baseada no uso intensivo de insumos. A adoção do sistema de monoculturas, o uso desequilibrado e altas doses de fertilizantes químicos e os agrotóxicos favoreceram a ocorrência de epidemias causadas por doenças e pragas em plantas. Para reduzir as perdas provocadas pelas doenças e pragas, o controle químico através da aplicação de agrotóxicos foi a principal ferramenta utilizada durante muitos anos. No entanto, a partir da publicação do livro Primavera Silenciosa, de Rachel Carson, em 1962, os cientistas e a sociedade perceberam a necessidade de buscar alternativas para diminuir a utilização de agrotóxicos na agricultura. Os agrotóxicos são apontados como formulações potencialmente perigosas, pois podem deixar resíduos nos alimentos, além de contaminar a água, o solo e os agricultores. Os agrotóxicos podem apresentar uma eficiência reduzida por ser afetados por inúmeros fatores (condições climáticas, especialmente no momento da aplicação e o local a ser protegido), além de selecionar populações resistentes de plantas espontâneas, pragas e microrganismos. Um exemplo das sérias consequências à saúde humana do uso crescente e abusivo de agrotóxicos na agricultura são os casos de intoxicação e mortes registrados no Centro de Informações Toxicológicas (CIT) situado no Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, SC. No período de 1986 até 2007, o CIT detectou 9.933 intoxicações de agricultores e 210 mortes em Santa Catarina (Fonte: Centro de Informações..., 2008). Segundo os técnicos, esses números representam apenas uma parte da realidade. Estima-se que para cada notificação oficial ocorram pelo menos 10 casos que não são registrados. Isso se deve, em parte, pela dificuldade de diagnosticar corretamente os casos de intoxicação.

Razões do ataque das pragas e doenças

     As hortaliças estão sujeitas a uma série de micróbios e insetos que causam danos às plantas. Os micróbios (bactérias, fungos, nematóides e vírus), quando encontram condições favoráveis, tornam-se muito ativos e as plantas, quando em condições desvantajosas, ficam sujeitas a eles. O olericultor deve procurar proporcionar condições que favoreçam as plantas, buscando, ao mesmo tempo, desfavorecer as doenças e as pragas. No caso específico das doenças é importante ter em mente que a ocorrência delas depende da exigência de um ambiente favorável (clima, solo, sistema de irrigação, etc.), de uma planta susceptível às doenças, da presença dos microrganismos e, em alguns casos, de um vetor (transmissor). Uma das teorias mais aceitas para explicar, em parte, o ataque de pragas e doenças é a Teoria da Trofobiose desenvolvida por Francis Chauboussou (Chaboussou, 1987). A teoria baseia-se na quantidade dos tipos de substâncias presentes nos órgãos das plantas. Caso estejam presentes mais substâncias simples (aminoácidos), que são mais desejadas pelos micróbios e pragas, ocorre maior ataque das pestes. Por outro lado, se existirem  substâncias mais complexas (proteínas), as  pragas causarão menos danos. Vários são os fatores relacionados com o tipo de substância predominante: adubações com fertilizantes químicos altamente solúveis, clima, estádio de desenvolvimento da planta, aplicações de agrotóxicos e estimuladores de crescimento.
     O Manejo Ecológico de Pragas (MEP), é o sistema que utiliza, ao mesmo tempo, várias formas de controle (ver matérias postadas neste blog  em 01, 16 e 27/09/2011; 21 e 26/10/2011, os principais métodos de manejo e o reconhecimento dos principais insetos-pragas das hortaliças).  O sistema não procura exterminar os insetos-pragas, mas simplesmente mantê-los em determinados níveis de equilíbrio e não colocando em risco a saúde, plantação e o lucro do agricultor. As pragas são consideradas como parte do sistema ecológico no qual a cultura se encaixa e, portanto, é combatida de modo a não alterar o balanço ecológico, o qual precisa ser mantido para que novas pragas não venham a ocorrer. O reconhecimento dos insetos-pragas e seus inimigos naturais, bem como as vistorias permanentes da lavoura, não podem ser dispensados no manejo ecológico de insetos-pragas. No novo conceito, pragas são considerados quaisquer animais (aves, doenças, ácaros e principalmente insetos), que competem com o homem pelo alimento por ele produzido. 
 Verdade: “não fazer nada” é, às vezes, a melhor solução para o manejo das pragas e doenças na agricultura orgânica
     O inseto pode ser considerado praga quando causa danos econômicos ao produtor. A simples presença de insetos na lavoura não significa perdas; é necessário que a população destes seja elevada.  Um exemplo prático, entre muitos outros,  da situação em que “não fazer nada”  é, às vezes, melhor,  quando ocorre o ataque de pulgões; as joaninhas, inimigos naturais destas pragas, se tiverem farto alimento e não utilizando-se inseticidas, reproduzem-se abundantemente e podem dominar os pulgões que atacam as plantas cultivadas e não serem mais problema na horta.

 Figura  1. Joaninha: a mais conhecida e eficiente inimiga natural dos pulgões
  
Preservação de bosques, cercas vivas e até capoeiras para servir como abrigo e alimento aos inimigos naturais dos insetos-pragas

     A preservação de bosques, cercas vivas e até capoeiras, próximos da área cultivada é muito importante para servir como abrigo e alimento de inimigos naturais e, até como quebra-ventos. Incluir nas lavouras faixas de adubos verdes e até deixar refúgios de plantas espontâneas ao redor dos cultivos, também contribuem para favorecer os inimigos naturais das pragas que atacam as culturas. Os inimigos naturais são insetos, fungos, bactérias, vírus, nematóides, répteis, aves e mamíferos pequenos. Todas as pragas das culturas  têm seus inimigos naturais que as devoram ou destroem. Daí a importância de diversificar os cultivos através da rotação, sucessão e consorciação de culturas, bem
como preservar refúgios naturais para manter a diversidade natural da fauna.Todos fazem parte do grande conjunto natural e cada um contribui para manutenção do equilíbrio na natureza.
     Entre as espécies de plantas que servem de refúgio para os inimigos naturais, destacam-se: o menstrato (Ageratum conyzoides), a beldroega (Portulaca oleracea), o caruru (Amaranthus viridis), o nabo forrageiro (Raphanus raphanistrum) e o sorgo granífero (Sorghum bicolor). No caso do sorgo, suas panículas em flor favorecem o abrigo e a reprodução de insetos como percevejo (Orius insidiosus), que é predador de lagartas, ácaros e tripes da cebola. Há, no entanto, plantas que são desfavoráveis à preservação e ao aumento de inimigos naturais das pragas, como mamona, capim, grama-seda, capim-amargoso, guanxuma, tiririca, picão-branco e carrapicho-carneiro.Entre os insetos, os inimigos naturais mais conhecidos são as joaninhas (Figura 1) e as vespinhas que parasitam especialmente pulgões, cochonilhas e lagartas.
Outros exemplos de inimigos naturais e os principais depredados ou destruídos são:
• percevejos –  atacam lagartas e seus ovos; • moscas – lagartas, seus ovos e outras pragas; • coleópteros – lagartas e percevejos; • louva-a-deus, joaninha e vespinhas – pulgões; • peixes – larvas de pernilongos; • fungos – larvas e nematóides; • garças – moluscos e insetos; • pica-pau – insetos; • tamanduá – formigas e cupins; • outros animais que se alimentam de insetos – galinha d’angola,morcegos, lagartas, sapos, rãs, tatus e pássaros (andorinhas, anus, bem-te- vis, corruíras, beija-flores e tesouras).

Princípios básicos para o manejo natural das pragas

     É preciso entender que o estado normal da natureza é a harmonia; numa floresta todos os seres vivos estão em equilíbrio. Nenhuma praga ou doença deveria ameaçar o equilíbrio do sistema em que vive. Foi o homem que ignorando as mais elementares das suas leis e mecanismos, terminou por criar as condições para o aparecimento de pragas e doenças. Foi muito bom para as indústrias, mas foi um péssimo negócio para o homem e demais seres vivos. Se pudéssemos contar com plantas desenvolvidas naturalmente, meio ambiente natural e equilibrado e solo fértil, não existiriam pragas e doenças.
     A observação de alguns princípios básicos poderá contribuir para o manejo natural das pragas em sua horta. Os principais são:
. Aumente a matéria orgânica e crie um microclima favorável à vida no solo;
. Cultive basicamente as espécies mais adaptadas para a sua região e para cada época de plantio;
. Dentro de cada espécie procure utilizar sempre as cultivares mais resistentes e recomendadas para cada época de plantio;
. Produza suas próprias sementes, se for possível, deixando frutificar as plantas mais vigorosas e produtivas;
. Procure diversificar, plantando o maior número de espécies possíveis na horta; o plantio de plantas repelentes e atraentes de pragas, muitas vezes, contribuem para o manejo natural; 
.Preserve alguns espaços sem cultivar e deixe a vegetação espontânea desenvolver-se, pois assim os inimigos naturais das pragas poderão se reproduzirem e se alimentarem;
. Evite, sempre que possível, o uso de inseticidas e fungicidas caseiros, pois embora não sejam tão agressivos ao meio ambiente, poderão afetar também os inimigos naturais. Recomenda-se, sempre que possível, que se aguarde o “surgimento” do controle natural.

 Pulverização com produtos alternativos

     O manejo eficiente das doenças e pragas é baseado em dois princípios fundamentais:

• É impossível controlar totalmente as  pragas; por isso, o que se recomenda é manejar a cultura de forma a reduzir ao mínimo os danos causados;

• O manejo é um conjunto de medidas que incluem determinadas práticas culturais e, em certos casos, o controle alternativo (somente aqueles produtos permitidos na agricultura orgânica). É suficiente para evitar danos econômicos às culturas.

     Plantas saudáveis produzidas em solos com vida e, em ambientes equilibrados, normalmente, não são atacadas por pragas. Substâncias alternativas aos agrotóxicos que são permitidos na agricultura orgânica (cinzas de madeira, calda bordalesa, calda sulfocálcica,  biofertilizantes, extratos vegetais, agentes de controle biológicos e outros produtos (ver como prepará-los através de matérias postadas neste blog em 13 e 22/12/2010 e 06/01/2011),  devem ser utilizados somente, quando necessário e, de forma criteriosa, evitando-se o uso sistemático na forma de calendário. O inseticida biológico à base de Bacillus thurigiensis, conhecido comercialmente como Dipel e outros, pode ser usado para manejar, especialmente, lagartas e traças que atacam as brássicas, bem como traças e brocas do tomateiro e, ainda as brocas das cucurbitáceas.  Os preparados de sálvia e  pimenta, plantas medicinais e condimentares (Figura 2), estão entre os produtos alternativos mais eficientes no manejo de pulgões, vaquinhas, grilos e paquinhas que atacam a horta.

Figura 2. Sálvia (planta medicinal) e pimenta (hortaliça-condimento), utilizadas em preparados que podem serem feitos na propriedade, são eficientes no manejo de lagartas e pulgões, respectivamente, que atacam a couve, repolho, couve-flor e brócolis. O preparado de pimenta também é eficiente no manejo de vaquinhas, grilos e paquinhas que atacam a horta.





sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Agricultura Orgânica vs Agricultura Convencional (Adubação Orgânica)



A adubação orgânica, ao contrário da adubação química, torna as plantas mais resistentes às pragas e doenças, protege e melhora a vida do solo, ajuda a restaurar a biodiversidade, mantém e melhora a fertilidade do solo ao longo do tempo e, ainda produz frutas e hortaliças mais saborosas e nutritivas.

    O que é adubação orgânica? a prática da adubação orgânica é uma forma de tratar bem o solo, ou seja, como um "organismo vivo". A vida no solo só é possível onde há disponibilidade de ar, água e nutrientes. Os organismos vivos do solo fazem a transformação química dos nutrientes, tornando-os disponíveis para absorção pelas raízes das plantas. De maneira simples e direta, pode-se dizer que a matéria orgânica é a parte do solo que já foi ou ainda é viva. É a matéria orgânica que dá a cor escura aos solos; em solo muito claro, aparentemente sem vida, "fraco", é provável que o teor de matéria orgânica seja muito baixo. A vida do solo depende da matéria orgânica que mantém a sua estrutura porosa (fofa), sem compactação, proporcionando a vida vegetal graças à entrada de ar, água e nutrientes. O adubo orgânico é constituído de resíduos de origem vegetal ou animal, tais como: estercos de animais, restos de culturas, palhadas, capins, folhas, raízes das plantas, animais que vivem no solo e tudo mais que se decompõe, transformando-se em húmus que é o resultado da ação de diversos microrganismos sobre os restos animais e vegetais.

Vantagens da adubação orgânica comparada à adubação química
Além de reduzir o custo de produção dos alimentos, a adubação orgânica não coloca em risco o meio ambiente, a saúde das pessoas e, ainda melhora a vida no solo e aumenta a resistência das plantas às doenças, pragas e aos climas adversos (secas, chuvas intensas). Dentre as inúmeras vantagens da adubação orgânica, destacam-se:

Aumento da capacidade do solo em armazenar água, diminuindo os efeitos das secas. Um solo com bom teor de matéria orgânica funciona como se fosse uma esponja, sendo que 1 grama de matéria orgânica retém 4 a 6 gramas de água no solo, contribuindo para diminuir as oscilações de temperatura do solo durante o dia;

aumento da população de minhocas, besouros, fungos e bactérias benéficas, além de vários outros organismos úteis, que estão livres no solo e associados às raízes das plantas, fixando nitrogênio e melhorando a capacidade das raízes absorverem nutrientes do solo;
possui macro e micronutrientes em quantidades bem equilibradas, que as plantas absorvem conforme sua necessidade, em quantidade e qualidade. Além disso, na adubação orgânica, as perdas dos nutrientes com as chuvas intensas e frequentes são bem menores, quando comparado a adubação química (altamente solúvel em água);

promove cimentação e agregação das partículas em solos arenosos, aumentando a retenção de água, enquanto que nos solos argilosos torna-os mais soltos e arejados, melhorando a penetração das raízes e a oxigenação do solo. A adubação orgânica auxilia também no controle à erosão (perda do solo) através do maior grau de aglutinação das partículas e, ainda diminui a compactação do solo;

a adubação orgânica aumenta a penetração das raízes e a oxigenação do solo. Possui macro (NPK, Ca, Mg e S) e micronutrientes em quantidades bem equilibradas, que as plantas absorvem conforme sua necessidade, em quantidade e qualidade. Além disso, na adubação orgânica, as perdas dos nutrientes com as chuvas intensas e frequentes são bem menores, quando comparado a adubação química (altamente solúvel);

possui substâncias de crescimento (fitohormônios), que aumentam a respiração e a fotossíntese das plantas.

 Figura 1. Representação de um solo manejado no sistema convencional (esquerda) e orgânico (direita).


    As vantagens da adubação orgânica quando comparada à adubação química, não param por aí! A adubação orgânica ajuda a restaurar a biodiversidade. Essa diversidade é o princípio básico da agricultura orgânica, contribuindo para a manutenção do equilíbrio do sistema e, consequentemente, do solo e das plantas cultivadas. O uso crescente e exagerado dos adubos químicos possibilitou a simplificação dos sistemas agrícolas, de forma que apenas uma cultura pudesse ser cultivada em determinada região para atender as necessidades locais ou as exigências de mercado e, em conseqüência, este modelo favoreceu o aparecimento de pragas, doenças, plantas invasoras e uma série de outros problemas. No cultivo orgânico é muito importante a diversificação da paisagem geral da propriedade de forma a restabelecer o equilíbrio entre todos os seres vivos da cadeia alimentar, desde microrganismos até pequenos animais, pássaros e outros predadores. A adubação verde, seja o plantio isoladamente ou em consórcio e até o cultivo consorciado com as culturas econômicas, é muito importante para manter o equilíbrio biológico e ambiental da propriedade.
    A adubação orgânica melhora também a qualidade dos alimentos, tornando-os mais ricos em vitaminas, aminoácidos, sais minerais, matéria seca e açúcares, além de serem mais aromáticos, saborosos e de melhor conservação pós-colheita. Estudos sobre os efeitos do sistema de cultivo nos teores de matéria seca, vitaminas, sais minerais e outros elementos, mostraram a superioridade dos alimentos produzidos no sistema orgânico - sem o uso de adubos químicos e agrotóxicos, utilizando-se práticas sem riscos ao meio ambiente (Tabela 1 e 2). 

      
              Tabela 1 - Diferença nutricional entre produto orgânico e convencional.

Tabela 2. Conteúdo de sais minerais nos alimentos orgânicos (maçã, batata, pera, trigo e milho).

    Outras práticas tais como plantio direto, cultivo mínimo, adubação orgânica e verde, uso de cultivares resistentes às pragas e doenças, cobertura morta, rotação e consorciação de culturas, são essenciais para o sucesso do cultivo orgânico, pois conduzem à estabilidade do agroecossistema, ao uso equilibrado do solo, ao fornecimento ordenado de nutrientes e à manutenção de uma fertilidade real e duradoura no tempo.

Principais fontes de matéria orgânica
    De maneira bem simples e direta, a matéria orgânica é a parte do solo que já foi ou ainda é viva. É constituída de resíduos de origem vegetal ou animal, tais como: estercos, restos de cultivos que ficam no campo, palhadas, folhas, cascas e galhos de árvores, raízes das plantas e animais que vivem no solo; podem estar vivos, como os pequenos animais ou já em decomposição, como os resíduos de plantas incorporados ao solo ou em cobertura. As hortaliças são as que mais respondem à aplicação de adubos orgânicos. As principais fontes são:
Composto orgânico : é o adubo ideal para ser utilizado na agricultura orgânica e, o que é melhor, não polui o meio ambiente e, ainda pode ser produzido na própria propriedade (Figura 2). Além de ser uma boa fonte de macronutrientes, possui micronutrientes essenciais para o desenvolvimento das plantas e, ainda reduz a acidez do solo, ao contrário dos adubos químicos e estercos de animais que podem salinizar e acidificar o solo e contaminar os rios. Mas as vantagens do composto não param por aí! devido a temperatura alta que alcança no processo da compostagem (até 65ºC), durante a fermentação, os microorganismos causadores de doenças das plantas e as sementes de plantas espontâneas ("mato") não sobrevivem. Os passos e os cuidados para fazer o composto orgânico na propriedade, estão em matéria mais antiga postada neste blog em 29 de dezembro de 2010.

Figura 2. Compostagem feita na Estação Experimental de Urussanga, utilizando-se cama de aviário e capim elefante anão.

Adubação verde: é uma das maneiras de cultivar e tratar bem o solo, princípio básico da agricultura orgânica. O que é? consiste no cultivo de espécies de plantas com elevado potencial de produção de massa vegetal, semeadas em rotação, sucessão e até em consórcio com culturas de interesse econômico (Figura 3, 4 e 5 ). 
Principais vantagens da adubação verde: produz alimento para os microorganismos úteis do solo, melhorando a vida e a estrutura do solo; protege o solo das adversidades climáticas e erosão; Fixa o nitrogênio do ar no solo (leguminosas –mucuna e outras); traz nutrientes do fundo do solo para a superfície (reciclagem); auxilia no manejo de plantas espontâneas (abafamento/alelopatia); manejo de pragas e doenças(rotação/quebra do ciclo/inimigos naturais); ajuda na descompactação do solo através das raízes; melhora a estrutura do solo tornando-o mais solto e arejado; melhoria da infiltração e retenção de água no solo; onde há pouco esterco é a principal e mais barata fonte de matéria orgânica.
Estercos de animais: os estercos curtidos de aves e de gado são os mais utilizados na adubação orgânica, devido a disponibilidade. São importantes fontes de nutrientes, mas não melhoram as condições físicas do solo; especialmente o de aves, quando em excesso (mais de 2 kg/m2 por ano), pode salinizar e aumentar a acidez do solo. A aplicação de esterco, em fase de fermentação (frescos), por ocasião do plantio, pode causar danos às raízes e às sementes, destruição dos microrganismos do solo, formação de produtos tóxicos, morte da planta pelo calor e contaminação das fontes de águas, contaminar as partes comestíveis das plantas e causar doenças nas pessoas e ainda serem fontes de sementes de plantas espontâneas. A integração agricultura e pecuária é muito recomendado na agricultura orgânica, pois além de disponibilizar o esterco, possibilita o repouso de parte da área e, o mais importante, favorece a rotação de culturas com outras espécies (pastagens) mais resistentes às doenças e pragas. No entanto, recomenda-se cuidado, ao adquirir esterco de outras propriedades, especialmente, se houver o uso de herbicidas, pois poderá afetar a lavoura ou horta. Para melhor aproveitamento dos estercos de aves e de gado, recomenda-se: a) abrigá-lo da chuva; b) curtir por cerca de 90 dias; c) fazer compostagem, pois são juntados outros materiais tais como as palhadas, restos de culturas e etc. ao esterco.
Quando é preciso fazer adubação orgânica ? é mais fácil e rápido "perder" matéria orgânica do que "ganhar": o preparo intensivo do solo acelera a decomposição da matéria orgânica. Para manter o solo produtivo ao longo do tempo é necessário que se adicione matéria orgânica com freqüência, com base na análise do solo. Ideal: a cada cultivo, adicionar matéria orgânica ao solo.

Mito: a prática da adubação verde em propriedades pequenas é inviável porque diminui ainda mais a área disponível para o cultivo de espécies que trazem retorno econômico.
A prática da adubação verde para regenerar a fertilidade do solo é muito antiga no mundo inteiro. Aqui no Brasil, foi muito utilizada até a década de 1970. Nesta época, com o aumento do uso da adubação química, houve uma redução no uso de adubação verde e, em pequenas propriedades, foi até esquecida, pois a área disponível para o plantio das espécies cultivadas tornava-se ainda menor. O conceito mais antigo de adubação verde era o cultivo de uma espécie (normalmente uma leguminosa) para ser incorporada ao solo na véspera do cultivo principal. Com o advento das práticas de plantio direto e cultivo mínimo, este conceito evoluiu, pois nestas práticas as plantas não são incorporadas ao solo, mas permanecem sobre o mesmo, protegendo-o no cultivo seguinte (Figura 3) ou até mesmo como cobertura viva, consorciado (Figuras 4 e 5) com os cultivos econômicos.

Figura 3. Milho-verde e mucuna (adubo verde verão) consorciados: ótima opção para adubação verde no verão, cobertura do solo para evitar erosão, rotação de culturas, manejo de plantas espontâneas e ainda possibilitar o cultivo mínimo de hortaliças, no final de inverno e início de primavera.

   Figura 4. Adubos verdes de inverno (aveia+ ervilhaca+ nabo forrageiro) consorciados com o tomateiro.

Figura 5. Adubos verdes de inverno (aveia+ervilhaca+nabo forrageiro) consorciados com brássicas.